Buraco de Minhoca – Mauro Rubens

Anoitecia e uma certa angústia, que ele conhecia bem, começava a tomar conta. Parecia que lá fora algo o chamava, algo que temia tanto quanto queria. Tentava com todas as forças pensar em outra coisa. Ligou no jornal, zapeou vagarosamente até a novela, indo dos esportes aos desenhos animados, mas nada adiantou: tremia, suava e o coração se acelerava aos pinotes.

Deixou a TV ligada e foi até a cozinha. Lá uma luz fluorescente, preguiçosa em acender, o irritava ainda mais. Enquanto ela piscava pensou ter visto o vulto de um rato correndo para trás da geladeira. Outra piscadela e a imagem de uma barata percorrendo a fruteira veio a sua mente. A taquicardia passou, mas o suor aumentou. O tremor diminuiu sendo substituído pela rigidez.

Finalmente a luz acendeu, ele, travado, se arrastou até o fogão e abriu as panelas para observar os restos do almoço. Acrescentou náusea às suas sensações, e foi em direção à geladeira buscando de uma vodca, que tinha no congelador. Aquilo tinha que passar.

No primeiro gole do segundo copo as coisas já estavam muito melhores. Foi até a sua grossa janela, que impedia a entrada de parte do imenso barulho do Minhocão, e viu os últimos carros se indo antes que este fosse fechado à noite. Pôde abrir a janela e jogar um gole de vodca para o santo, enquanto esperava que as pessoas tomassem conta daquele espaço, agora sem os carros.

O céu estava limpo e uma lua turca, com Vênus bem perto dela, restaurou completamente seu bem-estar, enquanto terminava o terceiro copo. Grupos de adolescentes, casais, famílias, skatistas e patinadores começavam a desfilar sob sua janela. Um cão solitário parou frente a ele, e sentou-se olhando-o fixamente.

O que será que passava pela cabeça daquele cão? Teria pena dele? Talvez tivesse problemas semelhantes? Ou simplesmente estava cansado e parou ali para admirá-lo como a uma paisagem? Na sala o jornalista na TV urrava chamando o helicóptero para mostrar alguma desgraça e compartilhá-la com milhões. Éramos dignos de pena e o cão devia apenas estar muito cansado. Talvez faminto. Abandonou o cão e foi para a cozinha.

A luz já estava acesa e os restos já não pareciam tão mal. Esquentou um pouco, fez seu prato e sentou-se à mesa imaginando ter ao menos a companhia do rato, que o observava, embaixo da geladeira, aguardando ansioso algum grão de arroz, ou qualquer outra coisa, que cairia por ali para se banquetear mais tarde. Enquanto a barata fazia figa com as antenas, entre as bananas na fruteira, para que caísse o bastante para sobrar para ela após a janta do rato. Lembrou que um dia teve companhia melhor e sentiu saudades da Teresa.

Quase um ano que ela havia ido embora, e seu riso suave ainda estava presente. Arnaldo, esse era o nome dele, dormia no lado dela da cama e ainda sentia seu calor e seu cheiro. Até mesmo seu olhar zangado, mas complacente quando bebia demais, era melhor que condenar a si próprio no espelho. Abraçou a garrafa e a tristeza e foi para o sofá. Desligou a TV com suas cores alto definitivamente felizes propagando abundância na falta de tudo.

No teto uma mariposa gravitava a lâmpada de filamento de 60 watts, fraca, antiga e ineficaz como ele; a lâmpada, ao menos, ainda conseguia a paixão da “bruxa”. Logo ela também começou a piscar e apagou. A lua turca não iluminava sua sala, apenas as fortes luzes do Minhocão. A mariposa foi embora em busca dessas luzes. Arnaldo ficou alguns instantes observando a sala, sem ter para onde ir. Determinado, foi até a janela, subiu no parapeito e voou atrás das luzes ele também.

7 Responses to Buraco de Minhoca – Mauro Rubens

  • Gyselle Fonseca:

    Parabéns Mauro! gostei muito!!! O fluxo muito bem elaborado e criativo. Grata por partilhar seus escritos. Grande abraço e Sucesso!!!

  • Rosane Volpini:

    Mauro, querido
    O seu conto me encantou pela riqueza de detalhes e por retratar a angústia do homem pós-moderno, sem perspectiva, sem amor, só e invisível nas grandes metrópoles. Ele voa atrás das luzes em busca da felicidade, que um dia conheceu ao lado da companheira Teresa.
    Parabéns pelo trabalho!!
    Beijão
    Rosane

  • vera Christina georges:

    O consolo e desconsolo de uma solidão urbana…

  • Jussara:

    Muito bom, Mauro. Gostei . Parabéns. Você conduziu o leitor para um final totalmente inesperado. Um choque! Abç.

  • Selma:

    Uma delícia de ler! Uma colagem da realidade do vazio da vida, com seus porquês silenciados e aguardando a interpretação e sensibilidade de quem lê.

  • Layde:

    Vida vazia, vida solitária… coisas de Sampa City… Gostei muito! Simplesmente flui e nos conecta com o personagem… Parabéns!

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