Diário do Ciborgue Ling-lai – Mauro Rubens

Lua, 17 de fevereiro de 2155

A Terra estava com poucas nuvens e muito azul nesta tarde, quando a nave chinesa Mandarim VIII chegou. Os nanorrobôs já iniciaram o trabalho de rejuvenescimento no sistema circulatório e linfático dos lideres do partido nas suas cinquenta cápsulas de sobrevivência. Terminado esse trabalho estas serão imediatamente colocadas nos casulos da Unidade de Recuperação pelo Sonho (URS). Os suprimentos já foram levados para as áreas de extração de novos minérios e para o depósito dos robôs e androides no subdistrito de New Shangai. Eles mesmos embarcarão a preciosa carga de lunita, para as usinas de fusão nuclear na Terra, quando a nave voltar para a Terra daqui algumas horas.

No horizonte me despeço da vista das estações da América e da Europa, que tinham dividido a Lua e suas áreas de extração mineral entre si depois da última Guerra d’Água, quando a América mudou sua capital para Manaus, para melhor cuidar das bacias do Amazonas e do Tocantins-Araguaia e a Europa mudou sua capital de Berlim para Moscou, para cuidar dos rios de lá e os férteis campos da Sibéria. A China não quis mudar sua capital para o Cairo, pois já tinha completo domínio sobre o Nilo e outros rios e lagos da África. Na Lua os três grandes estados colaboravam produzindo, a partir da mineração do solo e trocando entre si, lunita, água e oxigênio.

Decerto América e Europa também tinham suas URSs, afinal, fazer os melhores seres e poderes ficarem vivos e plenamente ativos mais de 300 anos havia se tornado prioridade entre as potências. Na URS os corpos só podem ser retirados das cápsulas depois de três dias plugados nas máquinas de sonhar, e daí os corpos ficam apenas nos casulos para mais sete dias plugados no holodeck, onde os sonhos são mais vívidos e quase alucinatórios. Os nanorobôs já haveria de tê-los deixado internamente com uma idade de 20 anos, isso tudo ajuda o cérebro, mas não seria muito sem renovar as mentes, o que só os sonhos e as vivências podem fazer.

Como único responsável pela URS minha função era acompanhar os sonhos de cada um nos primeiros três dias e, a partir disso, criar virtualmente o ambiente onde haveriam as experiências no holodeck. O que não será algo tão difícil, visto que tenho a disposição milhares de jojabytes de dados sobre ambientes, espaços, lugares, geografias, tipos humanos e animais para usar. O resto será feito pela atmosfera das cápsulas, que induziam o sono REM para o sonho e o acréscimo de poderosos gases alucinógenos aos dispositivos visuais de Realidade Virtual, para as vivências nos casulos.

Ao fim desses dez dias mais cinquenta poderosos líderes chineses estarão totalmente renovados, para viver plenamente por mais cem anos. Eu vou receber meu substituto, depois de vinte anos neste trabalho, e ele como eu chegando aqui aos vinte anos. Embarcarei de volta à Terra junto com eles, para minha manutenção, já que fui escolhido para me tornar ciborgue por deficiências de saúde e escolha de meus pais. Eles preferiram que eu sobrevivesse como tal, mesmo tendo que ir à Lua aos vinte anos. Vou receber novos olhos e coração cibernéticos e passar o resto de meus dias, exatamente mais dez anos, em Qingdao com meus pais, para contar histórias na poderosa indústria chinesa de cinema quadrimensional. O que era o mais próximo que se podia dar à população, em termos rejuvenescimento através de renovação pelo sonho e experiência mental.

Nesses últimos dias aqui vou programar com o novato minha própria experiência na URS. Vou começar com alguma vivência com Marco Polo. Depois quem sabe!?!?! Como cinco trocas de órgão cibernéticos é o limite atual, o desligamento do meu coração está programado para o dia 17 de fevereiro de 2.165 às 15h, quando farei sessenta anos.

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