Diário do Ciborgue Ling-lai – Mauro Rubens

Lua, 17 de fevereiro de 2155.

O ciborgue Ling Lai, ao colocar o cabeçalho em seu diário, ficou triste de lembrar que há quarenta anos havia nascido. Agora tinha só mais dez anos para viver. Como eram 18h33min, e tinha nascido às 21h40min, seriam exatos dez anos, três horas e sete minutos. Seres vivos, assim como estrelas, já tinham sua obsolescência programada desde sempre, mas saber o exato momento de sua morte não era para qualquer um. Pesava. A Terra esteve muito azul, quase sem nuvens a tarde toda. Bem diferente de quando nasceu, durante a passagem do super tufão Arjuna, batizado assim quando era apenas uma tempestade tropical em passagem pela Índia. Seu coração, já na gestação foi diagnosticado doente pelos testes genéticos. Sorte que foi trocado por um biocibernético da Foxconn, que permitia sua troca a cada dez anos no limite de cinco trocas.

No ano de seu nascimento comemorou-se os cinquenta anos do estabelecimento da Singularidade. As máquinas haviam atingido, com a Inteligência Artificial criada pelo próprio Homem, uma inteligência superior a este, e passaram a consertar desde os problemas das doenças e deficiências humanas até suas questões políticas. Logo passaram também a melhorar os já privilegiados, que mais ainda se tornaram e dividiram com as máquinas o governo sobre o resto dos humanos. Como os índios do Novo Mundo, que só pararam de guerrear entre si quando foram totalmente dominados pelos brancos europeus, ao estabelecer-se a Singularidade, acabaram-se também as guerras.

Sorte mesmo era a dos cinquenta líderes políticos e empresariais que a nave chinesa Mandarim VIII trouxe naquela manhã. Iriam ganhar muito mais que dez anos de vida. Só os poderosos tinham o direito a vida eterna. Ling Lai, embora devesse se dar por feliz, pois em outros tempos – e mesmo agora em certos lugares – não teria vivido uma semana, sentia inveja e raiva por seu limite no tempo de vida. Nanorrobôs iniciaram o trabalho de rejuvenescimento no sistema circulatório e linfático dos potentados, já no início da viagem em suas cápsulas de sobrevivência. Terminado esse trabalho Ling Lai imediatamente as colocou nos casulos da Unidade de Recuperação pelo Sonho (URS). Os suprimentos foram levados para as áreas de extração de novos minérios e para o depósito dos robôs e androides no subdistrito de Nova Xangai. Estes últimos embarcavam a preciosa carga extraída e transmitiam a energia elétrica dos painéis solares através de torres de micro-ondas sauditas para as torres Tesla na Terra.

Ling Lai, como todo cosmonauta chinês, conectava-se com um psicólogo da Agência Espacial Chinesa. Este, que o atendera da Terra naquela manhã, era um psicoterapeuta xamânico do povo Chukchee, da região Kamchatka, Sibéria. De nome Ukatchi, era um xamã variante, que o havia atendido como mulher desta vez, da mesma forma que o fez como homem da vez anterior. Foi muito perturbador. Por palavras e gestos Ukatchi induziu o sono em Ling Lai e apareceu-lhe em sonho como sempre. O perturbador foi que, no sonho, Ukatchi apresentou-lhe imagens ao longe de dois irmãos, que eram ancestrais dele, e de uma mulher. Ele os viu numa luta de espada, um deles morria com uma estocada no coração e era amparado no colo pela mulher. Esta foi a origem de sua doença congênita. Ling Lai ficou muito sensível depois disso. Sentia uma urgência, um alerta, além de ter arrepios no lado posterior direito da cabeça em intervalos de tempo.

América e Europa tinham dividido a Lua com a China e também deviam ter suas URSs, agências espaciais e psicoterapeutas de tradição cherokee ou celta, por exemplo. Afinal, fazer os potentados ficarem vivos e plenamente ativos havia se tornado prioridade entre as grandes nações, e para isso tinham que manter as equipes de humanos e ciborgues sadias na Lua, apesar das condições de isolamento. Na URS chinesa os corpos só podem ser retirados das cápsulas depois de três dias plugados nas máquinas de sonhar, e daí os corpos ficam apenas nos casulos para mais sete dias plugados no holodeck, onde os sonhos são mais vívidos e quase alucinatórios. Ficar internamente com uma idade de 20 anos ajuda muito o cérebro, mas nada como renovar as mentes, o que só os sonhos e as vivências poderiam fazer.

Como principal responsável pela URS, a função de Ling Lai era acompanhar os sonhos de cada um nos primeiros três dias e, a partir disso, criar virtualmente os ambientes onde haveriam as experiências no holodeck. O que não seria algo tão difícil, visto que tem a disposição uma imensidão de Jojabytes de dados sobre ambientes, espaços, geografias, tipos humanos e animais para usar. O resto será feito pela atmosfera das cápsulas, que induziam o sono REM para o sonho e o acréscimo de poderosos gases alucinógenos. Tudo perfeitamente adequado geneticamente ao cérebro de cada um, e aos dispositivos visuais de Realidade Virtual, para as vivências nos casulos. Ao analisar o perfil de um dos mandatários viu que este era o presidente da Foxconn. Inveja, raiva, urgência e alerta aumentaram e diminuíram os espaços de tempo de ocorrência dos arrepios em sua cabeça.

Ao fim de dez dias mais cinquenta poderosos líderes chineses estariam totalmente renovados, para comandar plenamente. Ling Lai tinha sido escolhido para se tornar ciborgue por seu problema de coração e a seus pais foi dada a escolha dele servir na Lua aos vinte anos e voltar aos quarenta. Eles preferiram que sobrevivesse mesmo com vinte anos de servidão. Depois disso ele voltaria para casa e receberia um novo e último coração para mais dez anos de vida. Viveria em Qingdao com seu pai – a mãe havia morrido quando ele era ainda criança – para contar histórias na poderosa indústria chinesa de cinema quadrimensional. Isso era o mais próximo que se podia dar à população, em termos de rejuvenescimento através de renovação pelo sonho e experiência mental.

Ling Lai lembrava de outras sessões com Ukatchi em que apareceram os acentos de cultura moura e judaica sobre algumas raízes semitas em seu DNA. A própria família brincava que também havia um suposto ancestral mongol da corte de Gengis Khan e um lado europeu de italianos vênetos da linhagem de Marco Polo. Havia também toda uma ancestralidade guerreira, que participou das guerras Mundiais às napoleônicas. Vidas cobertas da dor e glória dos heróis, que passaram por guerras mais antigas ainda como as medievais, as gregas, as faraônicas e até aquelas com os pobres neandertais. Vidas que ferviam em seu sangue. As imagens dos irmãos e da mulher se tornavam mais claras. Via cada vez mais de perto a luta de morte entre eles e o morto no colo dela. As imagens se confundiam com outras da corte do Khan, de Veneza, da Pietá. Ao alerta juntaram-se angústias inomináveis e à diminuição ainda maior do espaço de tempo entre os arrepios veio uma enorme dor de cabeça.

Enquanto essas coisas passavam por sua mente, uma mensagem chegou em sua tela: Ling Qi morreu. Era o pai de Ling Lai. Como todo ciborgue, fora esterilizado na primeira cirurgia. Sua linhagem terminava ali. Estarrecido, ficou olhando a mensagem até desvanecer. A tela preta indicava que não havia mais motivo para voltar, nem para viver. Nada mais o ligava a Terra, nem a lugar algum. Sua servidão terminava ali. Sua raiva daqueles poderosos era imensa. Fantasiou causar-lhes uma bad trip. Pela eternidade ficariam enlouquecidos ou teriam de ser sacrificados. Ele misturaria os perfis de drogas geneticamente escolhidas e programaria experiências mais parecidas com uma briga de foice no escuro, como ainda era a vida de bilhões de pessoas. Sabia que aquilo não mudaria as condições da vida humana na Terra, mas seria o presente que se daria de aniversário.

O corpo todo tremia de tão vivo. A urgência, a angústia e os arrepios passaram. Resolveu começar pelo sujeito da Foxconn. Pegou o perfil dele, viu suas fotos e da esposa. Achou algo familiar, particularmente nela, parecia muito com a mulher que havia ficado entre os irmãos, seus antepassados. De mais e mais perto vinham as imagens da luta. O nome dele era Ling Yong. Tinham em comum o mesmo sobrenome Ling. Correu até os casulos e abriu o dele. Não era possível. Era o mesmo rosto e corpo do irmão que havia morrido. Tinha uma marca de nascença como se fosse um corte no peito na altura do coração. Memórias, sonhos, reminiscências ancestrais. Realidades, seres e verdades sintéticas. Não importa. A vingança não era dele.

*(Conto publicado em antologia de textos produzidos pelos participante do curso Eu, Escritor realizado no SESC Belenzinho durante o ano de 2016)

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