Don Quijote – Volume I – 3

Con estas razones perdía el pobre caballero el juicio, y desvelábase por entenderlas y desentrañarles el sentido, que no se lo sacara ni las entendiera el mesmo Aristóteles, si resucitara para sólo ello. No estaba muy bien con las heridas que don Belianís daba y recebía, porque se imaginaba que, por grandes maestros que le hubiesen curado, no dejaría de tener el rostro y todo el cuerpo lleno de cicatrices y señales. Pero, con todo, alababa en su autor aquel acabar su libro con la promesa de aquella inacabable aventura, y muchas veces le vino deseo de tomar la pluma y dalle fin al pie de la letra, como allí se promete; y sin duda alguna lo hiciera, y aun saliera con ello, si otros mayores y continuos pensamientos no se lo estorbaran. Tuvo muchas veces competencia con el cura de su lugar —que era hombre docto, graduado en Sigüenza—, sobre cuál había sido mejor caballero: Palmerín de Ingalaterra o Amadís de Gaula; mas maese Nicolás, barbero del mesmo pueblo, decía que ninguno llegaba al Caballero del Febo, y que si alguno se le podía comparar, era don Galaor, hermano de Amadís de Gaula, porque tenía muy acomodada condición para todo; que no era caballero melindroso, ni tan llorón como su hermano, y que en lo de la valentía no le iba en zaga.

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Por estas razões perdia o pobre cavalheiro o juízo, e desvelava-se por entendê-las e desentranhar-lhes o sentido, que nem o próprio Aristóteles entenderia, ainda que só para isso ressuscitasse. Não entendia muito bem as feridas que Dom Belianis dava e recebia, porque imaginava que, por maior que fosse a maestria de quem lhe houvesse curado, não deixaria de ter o rosto e todo o corpo cheio de cicatrizes e sinais. Mas, apesar de tudo, louvava no autor aquele final de seu livro com a promessa daquela interminável aventura; e muitas vezes lhe veio o desejo de tomar-lhe a pena e finalizá-la literalmente, como ali se promete, e sem dúvida o faria, e ainda fugiria com ele, se maiores e contínuos pensamentos não o estorvassem. Teve muitas vezes discussões com o vigário do seu povoado – que era homem de sabedoria, graduado em Siguenza – sobre qual tinha sido o melhor cavaleiro: Palmeirim da Inglaterra, ou Amadis de Gaula, mas mestre Nicolas, barbeiro da mesma aldeia, dizia que nenhum atingiu o Cavaleiro do Febo, e que se alguém podia ser comparado a ele era Galaor, irmão de Amadis de Gaula, porque era estável em tudo; não era cavaleiro melindroso, nem tão chorão como seu irmão, e que em valentia não lhe ficava atrás.

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